bizi online

slice of life / wabi-sabi

slice of life (fatia de vida) é uma representação de experiências mundanas em arte e entretenimento. no teatro, refere-se ao naturalismo, enquanto na linguagem literária é uma técnica narrativa em que uma sequência aparentemente arbitrária de eventos na vida de um personagem é apresentada, muitas vezes sem desenvolvimento de enredo, conflito e exposição, bem como muitas vezes ter um final aberto. (wikipedia)

desde um tempo pra cá, tive uma espécie de epifania/virada de chave na cabeça envolvendo esse conceito. quando acontecem coisas bobas, inesperadas, alegres, bonitas etc no dia-a-dia, as vezes falo algo tipo "isso foi muito slice of life"... acho que faz parte do vocabulário de alguem que é cronicamente online.
e esse pensamento que tive se encaixa com outro conceito que acho legal:

wabi-sabi (侘寂) é um ideal filosófico japonês, assim como uma abordagem estética centrada na aceitação da transitoriedade e da imperfeição dos objetos e dos seres humanos. esta concepção é muitas vezes descrita como a do belo que é “imperfeito, impermanente e incompleto”. (wikipedia)

a ideia que tive, a chavinha que virou, é que todo dia é ou pode ser um slice of life (isso é óbvio? pra mim foi uma grande revelação... mind = blown). prestar atenção nos momentos simples, nas pequenas coisas, nas belezas de todo dia que eu deixei de dar valor por algum motivo.

pra mim, são momentos do tipo:
ver um inseto bonito bem de perto;
jogar água no rosto;
apostar corrida com um amigo;
ter uma interação social agradável e inesperada;
sentir o calor do sol na pele;
brincar com um animal;
receber um sorriso de uma criança;
ver uma figura em algo da natureza, como uma folha que se parece com um coração;
estar com pessoas amadas;
dar risada e falar besteira;
e por aí vai.

quando tive esse pensamento/ideia/epifania/virada de chave, decidi que a partir daquele momento eu iria me dedicar a perceber o slice of life de cada dia, ou simplesmente permitir que esses pequenos momentos me encontrem.

era uma segunda feira e estava indo pra uma aula péssima com mi amigue do coração (te amo kira). eu falei sobre esse sentimento e essa vontade de apreciar as coisas simples. o céu estava limpo, azul, brilhante e o sol esquentando a gente enquanto andávamos em direção ao prédio. falei algo do tipo "todo dia é um slice of life" ou "eu vou buscar o slice of life em cada dia", e parece que consegui transmitir exatamente o que eu pensava pra ele. clicamos e aí decidimos que essa seria nossa nova mentalidade. segunda feira, céu azul, aula terrível, mas estou na companhia de alguém que amo muito e trocamos olhares e risadas discretas sobre as coisas vergonhosas que são ditas nessa aula.

pra mim foi um momento decisivo, apesar de bobinho. desde aquele dia meu olhar tem sido um pouco diferente, mais positivo. eu não sabia que também tinha sido importante pro kira até algum tempo depois, quando estavávamos na casa dele, no quartinho aconchegante, conversando sobre mil coisas da vida como a gente sempre faz, e ele me contou que também passou a buscar o slice of life em todos os dias depois daquela conversa. fiquei muito feliz :)

talvez seja um pouco sobre romantizar a vida e a rotina, mas "romantizar" não me parece a palavra certa, é como se fosse um exagero. mas não é nada demais, não é nada fora do comum, não exige muito esforço, talvez seja mais sobre parar de se esforçar. acho que a vida já é romântica o suficiente.

isso tudo coincidiu com uma época que estou sem o aplicativo malvado, demoníaco, sugador de almas, destruidor de cérebros... o instagram. eu estava passando por um caso sério de dependência psicológica em vídeos curtos, deixando eles preencherem qualquer segundo desocupado do meu dia, e me impedirem de fazer outras coisas. decidi que tomaria a atitude de deletar o aplicativo, e tive o prazer de ter um amigo querido me acompanhando nessa jornada (obrigada vini).

os primeiros dias foram mais difíceis (essa merda é pior que cigarro), mas depois me acostumei, e me sinto muito bem.
meu tempo de tela diminuiu consideravelmente, mas é claro que acabei arranjando outras formas de passar o tempo no celular, a principal sendo jogar sudoku... no começo até isso era frustrante porque eu sentia que minha habilidade tinha diminuído, agora eu acho que meu cérebro teve a chance de se regenerar um pouco e eu voltei a ser boa no sudoku xD mas esse não é o ponto.

o ponto é que não tem como prestar atenção na beleza das coisas simples do cotidiano se eu estiver com a cara enfiada no celular. e isso me pegou. é tão simples, por que é tão difícil?
sei que é um problema geracional, mas estou falando por mim.
vejo uma onda de conteúdo "anti-brainrot", como listas de coisas pra fazer ao invés de scrollar, listas de coisas para ler, etc, mas eu acho um tanto contraditório. é como se tivesse virado uma nova tendência, criar conteúdo nas redes sociais sobre como não consumir conteúdo nas redes sociais o tempo todo.
agora que já estou há um tempo afastada daquele aplicativo, penso que talvez se eu voltar a usar todas as coisas ruins voltem. é uma relação parecida com a que eu tenho com substâncias. pelo menos algumas substâncias eu consigo usar e continuar sentindo amor pela vida e vontade de criar.

isso faz falta, vontade de criar. é algo que tenho muito forte dentro de mim, mas fico fingindo que não.

coincidentemente ou não, nessa mesma época, resolvi que iria voltar a desenhar casualmente. tenho uma relação de amor e ódio com desenho. perfeccionismo paralisante, dificuldade de refinar o traço, etc e tal. mas eu não odeio meus desenhos, as vezes até gosto um pouco.

então eu arranjei um caderninho novo, com (muitas) folhas sem pauta, e o papel sulfite comum que não dá dó de riscar, apagar, amassar e jogar fora se for o caso. daí resolvi encapar e encher de adesivos que me diverti fazendo. deixei o caderno na mochila, pra desenhar qualquer coisa durante alguma aula tranquila, ou quando não sei o que fazer com as mãos (o tempo todo). pra minha surpresa isso deu certo e eu tenho desenhado muito mais. é bom.

é bom prestar atenção nas coisas, fazer um desenho de observação de algum desconhecido e nunca mostrar. tem tantas coisas ao meu redor o tempo todo.

como é possível viver dia após dia e não prestar atenção em nada?

gosto muito das minhas conversas com kira. ele falou algum dia desses que amor era atenção. atenção e curiosidade. eu concordo.

quero prestar atenção e ser curiosa sobre as coisas ao meu redor.


07/06/2026

-- ˗ˏˋ ★ ˎˊ˗ --